É errado mentir para a minha mãe com alzheimer?

Desde que somos pequenos, na maior parte dos casos, o ensinamento é claro: mentir é errado, não deve ser feito! Quando as pessoas crescem, a relação com a mentira se torna um pouco diferente.

Em alguns casos é por uma questão de cordialidade, evitar ser indelicado ou a fim de evitar uma situação de constrangimento, mas a pergunta principal é: e no caso do idoso com Alzheimer? Cabe mentir? E se sim, em qual situação? Essa é uma dúvida muito comum. Por isso vamos discutir um pouco mais sobre esse assunto.

 

O que é mentira terapêutica? E como aplicá-la?

Você já ouviu falar em “mentira terapêutica”? Ela é muito falada na área de bioética, e nos faz refletir “até que ponto é benéfico para a pessoa saber a verdade”?

Para uma pessoa com Alzheimer, nós devemos entender que a mentira terapêutica serve para evitar sofrimento, já que as informações não serão armazenadas, mas causarão sofrimentos a curto prazo.

Vamos aplicar um exemplo para ficar mais claro: uma idosa apresenta um pico de agitação e diz que quer ir embora da casa. Esses episódios de agitação são sempre regidos por uma “pressa” em resolver aquela situação. Então ela pega a bolsa e fala que tem que ir a um lugar X, e o seu familiar, tentando acalmá-la, fala que ela não vai a lugar nenhum, tentando explicar os motivos para isso.

Sabemos que a intenção do familiar é muito boa, mas o idoso está em um quadro de confusão e agitação mental, e o impedimento vai deixá-la ainda mais agitado. Seguindo neste mesmo exemplo acima, ao invés de tentar acalmá-la dizendo que ela não tem que ir a lugar nenhum, uma das opções é o familiar dizer ao idoso que irá junto até o ponto de ônibus ou até o carro. Isso é uma mentira terapêutica.

O simples fato de concordar com o idoso e acolher a sua angústia faz com que ele possa se acalmar! As vezes realmente entrar no carro, ou dar uma volta no quarteirão pode ajudar muito, pois, na maioria das vezes nós não iremos conseguir trazer a pessoa com Alzheimer de volta para a realidade no momento da agitação.

É importante ressaltar: A demência impede o cérebro de processar, recuperar, e reter informações corretamente.

A mentira terapêutica tem como caráter o desvio da atenção para o problema criado pela pessoa com demência, o que resulta na garantia de que ela se sinta segura e protegida, e acima de tudo, tendo seus sentimentos validados.

Lembre-se: em momentos de agitação é muito importante tranquilizá-los, mesmo que isso signifique continuar na verdade que foi construída pela pessoa.

Usando o mesmo exemplo, se o familiar não tiver disponibilidade para sair com o idoso naquele momento, pode acalmar a agitação dizendo coisas como “eu sei, mas eles acabaram de me ligar e pediram para você esperar”. Vale até conversar com algum conhecido para confirmar a história e oferecer uma maior tranquilidade ao idoso.

Uma ideia interessante pode ser criar uma situação como “sim, nós iremos até lá, mas antes precisamos arrumar a sua bolsa, onde a sua bolsa está? Vamos arrumar a sua bolsa primeiro?” e assim ganha um tempo de desvio da atenção para a situação que inicialmente estava deixando o idoso agitado.

 

Mas isso não é enganar o idoso?

A mentira terapêutica não tem nenhuma intenção de enganar o idoso! Ela é uma forma de compreender as limitações cognitivas do idoso com Alzheimer, e entende que um confronto neste momento não é a melhor escolha. A intenção aqui é de preservar a sua saúde emocional em momentos de agitação e estresse.

Além disso, a situação pode se tornar mais leve se os familiares entenderem a situação e usarem a favor do ambiente, como por exemplo ter um espaço de referência quando o idoso disser que “quer ir para X lugar”.

Por exemplo: se o idoso sempre trabalhou em obras, e durante seus picos de agitação disser que quer ver como a obra está ficando, tente encontrar se há alguma obra na região para que nesses momentos você possa levá-lo, para que ele “supervisione” a obra. É interessante já conversar com algum profissional que estará presente para que o receba com carinho e o acolha.

Deste modo, é possível tornar situações muito desgastantes em algo mais leve, com acompanhamento e com os profissionais certos, é possível conviver com o Alzheimer com um pouco menos de sofrimento no dia a dia.

 

Tenha sempre profissionais capazes ao seu lado!

É muito importante que o familiar que possui um idoso que atravessa por essa situação ter o acompanhamento de profissionais especializados. Eles têm todo o suporte emocional para lidar com essas situações sem se assustar, além de poder conhecer e desenvolver outras estratégias de acordo com o perfil da pessoa idosa.

Aqui no Terça da Serra somos preparados para receber hóspedes em todos os graus de dependência e prezamos pelo cuidado humanizado e individual de cada um. Levando sempre em consideração as suas vontades e desejos. Acompanhe o nosso dia a dia nas redes sociais.

 

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